sábado, 29 de novembro de 2008

Aniversário do Daniel

29 de novembro de 2008. Hoje foi aniversário do meu irmão Daniel. Ainda não se passaram nem dois meses de sua morte – e a dor ainda é a mesma. Mas até hoje ainda não consegui me abrir com ninguém; e nem mesmo consegui reconfortar ninguém. São tantos sentimentos complexos competindo uns com os outros, como se me fatiassem de cima para baixo e lá eles estivessem, sobrepostos em cada camada.

Sei que se ele estivesse aqui hoje, ele passaria este sábado à tarde comendo um churrasco com os amigos, tomando uma cerveja gelada e ouvindo guns n’ roses . À noite estaria tocando rock com sua guitarra em algum bar da cidade – e essa seria com certeza uma ótima maneira de comemorar um aniversário. Sei que isso está acontecendo em algum universo paralelo.

Pouca gente sabe, mas antes de gostar de guns n' roses, a banda que o Daniel mais adorava era Pearl Jam, por isso, esta música eu ofereço a ele:

Hey... oooh...
Sheets of empty canvas, untouched sheets of clay
Were laid spread out before me as her body once did.
All five horizons revolved around her soul
As the earth to the sun
Now the air I tasted and breathed has taken a turn

Ooh, and all I taught her was everything
Ooh, I know she gave me all that she wore
And now my bitter hands chafe beneath the clouds
Of what was everything.
Oh, the pictures have all been washed in black, tattooed everything...

I take a walk outside
I'm surrounded by some kids at play
I can feel their laughter, so why do I sear?
Oh, and twisted thoughts that spin round my head
I'm spinning, oh, I'm spinning
How quick the sun can drop away

And now my bitter hands cradle broken glass
Of what was everything?
All the pictures have all been washed in black, tattooed everything...

All the love gone bad turned my world to black
Tattooed all I see, all that I am, all I'll be... yeah...
Uh huh... uh huh... ooh...

I know someday you'll have a beautiful life,
I know you'll be a sun in somebody else's sky, but why
Why, why can't it be, can't it be mine

Aah... uuh..

Too doo doo too, too doo doo [many times until fade]

// Black - Pearl Jam (Written by Eddie Vedder & Stone Gossard)


sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Quando você viaja de avião...

Quando você viaja de avião,
A imensidão do céu,
As asas de aço se dobrando
E potência dos motores
Fazem você se sentir pequeno
Como as coisas no chão;
E seu exterior,
Sua carne,
Já não são tão importantes,
A beira do insignificante.
É nesse momento que sobra apenas o seu vazio,
E você começa a pensar
Apenas no que realmente é importante.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Amor Apertado

Sabe aqueles banheiros mínimos,
que quando um entra o outro tem que sair?
Tem amores que parecem um banheiro apertado: só cabe um.
Ela ama o cara. Interessa-se pela sua vida, seu trabalho, seus estudos, seu esporte, seus amigos, sua família, enfim, ela está inteira na dele.
Ele, por sua vez, recebe isso de muito bom grado mas não retribui.
Não pergunta pelo trabalho dela,
pelas angústias dela, por nada que lhe diga respeito.
Ela, obviamente, não gosta desta situação, mas vai levando, levando, levando, até que um belo dia sua paciência se esgota e ela tira o time de campo. Aí ele entra. De repente, como num passe de mágica, ele se dá conta de como ela é legal, de como ele tem sido distante,
de como vai ser duro ficar sem a sua menina.
Então ele a torpedeia com e-mails e telefonemas carinhosos.
Mas ela é gata escaldada, não vai entrar nessa de novo.
Ele insiste. Quer vê-la, quer que ela entenda que ele é desse jeito tosco mesmo, mas que no fundo ela é a mulher da vida dele.
Ela é gata escaldada mas não é de gelo: então tá, vamos tentar de novo.
Ela entra com tudo.
Com a namorada resgatada, ele se isola novamente em seu próprio mundo, deixando-a conduzir tudo sozinha.
É ela quem o procura, é ela que o elogia, é ela que arma os programas,
é ela que lembra das datas, é ela, tudo ela, só ela.
Quer saber: tô fora!
Aí ele entra. Pô, gata, prometo, juro, ó: vou cobrir você de carinho.
E não é que ele cumpre?
Passa a tratá-la como uma deusa, superatencioso, parece outro homem.
Ela aceita a deferência, mas não entra mais nesse jogo. Simplesmente não retribui o afeto dele, quase nunca telefona, sai com as amigas toda hora, e ele ali, no maior esforço.
Ela esnobando, ele tentando, ela se fazendo, ele se declarando.
Até que ele enche: tô fora.
Aí ela entra. E ele esfria, e ela cai fora, e ele volta, e seguem neste entra-e-sai até o desgaste total.
Bom mesmo é amor em que cabem os dois juntos.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Nós somos a Crise!

Fico me perguntando até onde a mente humana pode ser tão meramente limitada. Somos criaturas per si imediatistas. Vejo o decorrer desta “crise mundial” como mais uma demonstração de nossa incapacidade de aprendermos com nossos erros.

Gostaria que daqui alguns anos eu releia este blog e ache graça do que escrevi. Mas duvido muito que isto aconteça.

Não precisaria ser um guru da economia ou vidente para imaginar que iremos pagar um alto preço pela mesquinharia, soberba e luxuria que pautamos nossas vidas. Desde que iniciou-se um processo de excelente crescimento econômico a nível mundial, pudemos observar que diversos governos pisaram fundo no acelerador e como um animal faminto debruçou-se cego para devorar os lucros exponenciais.

Surfar nesta mega onda de prosperidade foi o principal plano dos governos, inclusive o nosso, que a propósito, lucrou em muito associando a sua imagem no virtual “céu de brigadeiro”.

Onde eu quero chegar? Quero demonstrar que não temos liderança alguma, que não temos um líder capacitado de sensatez e perceber que um dia teríamos que frear essa locomotiva desgovernada!

Mas o que aconteceu com a economia? Íamos tão bem... Bom, inspirado no ex-candidato ao governo norte-americano MCain, terei o John – O Encanador, que no caso em minha história o chamarei de Paul - O Especulador:

Paul comprou um apartamento, no começo dos anos 90, por U$ 300.000 financiado em 30 anos. Em 2006 o apartamento do Paul passou a valer U$1,1 milhão. Aí, um banco perguntou pro Paul se ele não queria uma grana emprestada, algo como U$800.000, dando seu apartamento como garantia. Ele aceitou o empréstimo, fez uma nova hipoteca e pegou os U$800.000.

Com os U$800.000 Paul, vendo que imóveis não paravam de valorizar, comprou 3 casas em construção dando como entrada algo como U$400.000. A diferença, U$400.000 que Paul recebeu do banco, ele se comprometeu: comprou 1 carro novo (alemão) pra ele, deu um carro (japonês) para cada filho e com o resto do dinheiro comprou 2 TV’s de plasma de 63 polegadas, 43 notebooks, 1634 cuecas e o que sobrou jogou no bicho. Tudo financiado, tudo a crédito! A esposa do Paul, sentindo-se rica, sentou o dedo no cartão de crédito. Quanto amor!!!!

Em agosto de 2007 começaram a correr boatos que os preços dos imóveis estavam caindo. As casas que o Paul tinha dado entrada e estavam em construção caíram vertiginosamente de preço e não tinham mais liquidez...

O negócio era refinanciar a própria casa, usar o dinheiro para comprar outras casas e revender com lucro. Fácil...

Parecia fácil. Só que todo mundo teve a mesma idéia ao mesmo tempo. As taxas que o Paul pagava começaram a subir (as taxas eram pós fixadas) e o Paul percebeu que seu investimento em imóveis se transformara num desastre. Milhões tiveram a mesma idéia do Paul. Tinha casa pra vender como nunca.

Paul foi agüentando as prestações da sua casa refinanciada, mais as 3 casas que ele comprou, como milhões de compatriotas, para revender, mais as prestações dos carros, as das cuecas, dos notebooks,das tv’s de plasma, do vício no jogo do bicho e do cartão de crédito da amada esposa.

Aí as casas que o Paul comprou para revender ficaram prontas e ele tinha que pagar uma grande parcela. Só que neste momento Paul achava que já teria revendido as 3 casas, mas, ou não havia compradores ou os que haviam só pagariam um preço muito menor que o Paul havia pago. Paul se danou! Começou a não pagar aos bancos as hipotecas da casa que ele morava e das 3 casas que ele havia comprado como investimento. Os bancos ficaram sem receber de milhões de especuladores iguais a Paul. Paul optou pela sobrevivência da família e tentou renegociar com os bancos que não quiseram acordo. Paul entregou aos bancos as 3 casas que comprou como investimento perdendo tudo que tinha investido. Paul quebrou!

Ele e sua família pararam de consumir... Milhões de Paul’s deixaram de pagar aos bancos os empréstimos que haviam feito baseado nos preços dos imóveis. Os bancos haviam transformado os empréstimos de milhões de Paul’s em títulos negociáveis. (De onde arrumariam dinheiro pra emprestar para tantos caras bacanas feito o Paul??) Esses títulos passaram a ser negociados com valor de face. Com a inadimplência dos Paul’s esses títulos começaram a valer pó. Bilhões e bilhões em títulos passaram a nada valer e esses títulos estavam disseminados por todo o mercado, principalmente nos bancos americanos, mas também em bancos europeus e asiáticos.

Os imóveis eram as garantias dos empréstimos, mas esses empréstimos foram feitos baseados num preço de mercado desse imóvel... Preço que despencou. Um empréstimo foi feito baseado num imóvel avaliado em U$500.000 e de repente passou a valer U$300.000 e mesmo pelos U$300.000 não havia compradores.

Os preços dos imóveis eram uma bolha, um ciclo que não se sustentava, como os esquemas de pirâmide, especulação pura. A inadimplência dos milhões de Paul’s atingiu fortemente os bancos americanos que perderam centenas de bilhões de dólares. A farra do crédito fácil um dia acaba. Acabou.

Com a inadimplência dos milhões de Paul’s, os bancos pararam de emprestar por medo de não receber. Os Paul’s pararam de consumir porque não tinham crédito. Mesmo quem não devia dinheiro não conseguia crédito nos bancos e quem tinha crédito não queria dinheiro emprestado. O medo de perder o emprego fez a economia travar. Recessão é sentimento, é medo. Mesmo quem pode, pára de consumir. O FED começou a trabalhar de forma árdua, reduzindo fortemente as taxas de juros e as taxas de empréstimos interbancários.

O FED também começou a injetar bilhões de dólares no mercado, provendo liquidez. O governo Bush lançou um plano de ajuda à economia sob forma de devolução de parte do imposto de renda pago, visando incrementar o consumo, porém essas ações levam meses para surtir efeitos práticos. Essas ações foram corretas e, até agora não é possível afirmar que os EUA estão tecnicamente em recessão.

O FED trabalhava. O mercado ficava atento e as famílias esperançosas. Até que na primeira semana de outubro o impensável aconteceu. O pior pesadelo para uma economia aconteceu: a crise bancária, correntistas correndo para sacar suas economias, boataria geral, pânico. Um dos grandes bancos da América, o Bear Stearns, amanheceu, numa segunda feira, quebrado, insolvente.

No domingo o FED, de forma inédita, fez um empréstimo ao Bear, apoiado pelo JP Morgan Chase, para que o banco não quebrasse. Depois disso o Bear foi vendido para o JP Morgan por 2 dólares por ação. Há um ano elas valiam 160 dólares.

Durante a semana seguinte, dezenas de boatos voltaram a acontecer sobre quebra de bancos. A bola da vez foi o Lehman Brothers, um bancão!

Vimos o inglês Gordon Brown, o francês Sarkozy, a Alemã Angela Merkel e o russo Dmitri Medvedev (este, fantoche do Putin) arrancarem os cabelos nas as primeiras semanas de outubro. Impressionante como ali nos salões ovais eles deram-se as mãos e diferenças foram deixadas de lado. E a cada injeção de ânimo que era inoculada no mercado (cada “ampola” custava em média uns 200 a 500 bilhões), este reagia com mais caras legais feito o Paul, só que no mercado de ações, especulando nos valores dos papéis das empresas.

Daí toda vez que o Bush vinha a público, o preço das ações despencavam... Daí toda vez que o FED liberava mais dinheiro pro mercado, o preço das ações subiam...

Vou fazer um slideshow para você. Está preparado? É comum, você já viu essas imagens antes. Quem sabe até já se acostumou com elas:

Começa com aquelas crianças famintas da África. Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele. Aquelas com moscas nos olhos. Os slides se sucedem. Êxodos de populações inteiras. Gente faminta. Gente pobre. Gente sem futuro.

Durante décadas, vimos essas imagens. No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto.

Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados. São imagens de miséria que comovem. São imagens que criam plataformas de governo. Criam ONGs. Criam entidades. Criam movimentos sociais.

A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza. Ano após ano, discutiu-se o que fazer. Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta.

Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo. Acabar! Resolver! Extinguir!

Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta. Não sei como calcularam este número. Mas digamos que esteja subestimado. Digamos que seja o dobro. Ou o triplo.

Com 120 bilhões o mundo certamente seria um lugar mais justo.

Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse. Não houve documentário, ong, lobby ou pressão que resolvesse. Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia.

Esta noite, o Citigroup anunciou que irá demitir 73 mil funcionários até janeiro de 2009, até outubro já foram demitidos 21 mil.

A classe media americana está pedindo falência, porque lá pessoa física pode abrir pedido de falência, e posterga a dívida em até 5 anos, mas precisa estar empregado. Cerca de 5 mil novos pedidos são registrados ao dia. Crescimento de 30% em outubro.

GM, Ford e Crysller, as maiores montadoras de automóveis dos EUA já anunciaram que precisam de socorro até o início de 2009, ou irão parar a produção. Nem precisa dizer o que acontecerá com milhares de funcionários...

O que começou com o Paul hoje afeta o mundo inteiro. A coisa pode estar apenas começando. Só o tempo dirá.

// Abilio Jr

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Como conservar rosas

Eu já ganhei rosas de presente.
Não são somente as mulheres que gostam de ganhar flores.
Mas quem realmente consegue manter as flores em um bom estado por mais de um dia?

Vou te ensinar a como conservar rosas por até duas semanas:

Corte um centímetro do caule para abrir os canais aquáticos;
Coloque em um vaso com três litros de água morna - nunca fria;
Coloque um pouco de alvejante na água para manter organismos afastados, que fariam o caule entortar;
Troque a água a cada três dias.

Simples não?
Antes de saber o segredo, eu fazia tudo ao contrário.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Difícil querer definir amigo

Amigo é quem te dá um pedacinho do chão, quando é de terra firme que você precisa, ou um pedacinho do céu, se é o sonho que te faz falta.

Amigo é mais que ombro amigo, é mão estendida, mente aberta, coração pulsante, costas largas. É quem tentou e fez, e não tem o egoísmo de não querer compartilhar o que aprendeu. É aquele que cede e não espera retorno, porque sabe que o ato de compartilhar um instante qualquer contigo já o alimenta, satisfaz. É quem já sentiu ou um dia vai sentir o mesmo que você. É a compreensão para o seu cansaço e a insatisfação para a sua reticência.

É aquele que entende seu desejo de voar, de sumir devagar, a angústia
pela compreensão dos acontecimentos, a sede pelo "por vir". É ao mesmo tempo espelho que te reflete, e óleo derramado sobre suas águas agitadas. É quem fica enfurecido por enxergar seu erro, querer tanto o seu bem e saber que a perfeição é utopia. É o sol que seca suas lágrimas, é a polpa que adocica ainda mais seu sorriso.

Amigo é aquele que toca na sua ferida numa mesa de chopp, acompanha suas vitórias, faz piada amenizando problemas. É quem tem medo, dor, náusea, cólica gozo, igualzinho a você. É quem sabe que viver é ter história pra contar. É quem sorri pra você sem motivo aparente, é quem sofre com seu sofrimento, é o padrinho filosófico dos seus filhos. É o achar daquilo que você nem sabia que buscava.

Amigo é aquele que te lê em cartas esperadas ou não, pequenos bilhetes em sala de aula, mensagens eletrônicas emocionadas. É aquele que te ouve ao telefone mesmo quando a ligação é caótica, com o mesmo prazer e atenção que teria se tivesse olhando em seus olhos.

Amigo é multimídia. Olhos....

Amigo é quem fala e ouve com o olhar, o seu e o dele em sintonia telepática. É aquele que percebe em seus olhos seus desejos, seus disfarces, alegria, medo. É aquele que aguarda pacientemente e se entusiasma quando vê surgir aquele tão esperado brilho no seu olhar, e é quem tem uma palavra sob medida quando estes mesmos olhos estão amplificando tristeza interior. é lua nova, é a estrela mais brilhante, é luz que se renova a cada instante com múltiplas e inesperadas cores que cabem todas na sua íris.

Amigo é aquele que te diz "eu te amo" sem qualquer medo de má interpretação.

Amigo é quem te ama "e ponto".

É verdade e razão, sonho e sentimento.

Amigo é pra sempre, mesmo que o sempre não exista.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Cartas de Amor... Despedida.

- Você vai aprender a viver sem mim, eu sei que vai. Ah, e... Se eu esqueci alguma coisa minha por aqui, por favor, avise-me depois. Tchau.

Ela colocou a mochila nas costas e saiu antes que ele pudesse dizer uma ou duas palavras. Bateu a porta e sumiu logo após a primeira curva da estrada. Nos olhos dele, milhares de lágrimas contidas ameaçavam saltar para fora a qualquer momento. Não, ela não sabia o que estava dizendo. Ela não imaginava que jamais ele aprenderia a viver novamente sozinho ou com outra garota qualquer. Era tudo tão completo, tão perfeito e tão feliz que, sem ela, nada restava. Nada.

Mas finais são sempre assim, tristes e frios. Em alguns momentos de lucidez, ele lembrava de certos filmes que havia visto, livros que havia lido e músicas que havia ouvido. Todos falavam sobre abismos, sobre amores despedaçados, sobre dores agudas, sobre estradas sem fim. Mas, dentro da ficção, tudo sempre tem cura: um outro amor, uma reconciliação, um novo brilho de presente aos olhos. Na realidade, tudo é diferente. Ela não voltaria, ele jamais encontraria alguém que pudesse substituí-la e talvez ele esquecesse, com o passar do tempo, coisas simples como andar ou falar, mas jamais esqueceria a sensação de estar ao lado dela.

O problema é que ela sabia demais. Sabia sorrir, brigar, escrever, contar histórias, chorar baixinho e ouvir as melhores músicas. Além disso ela era linda, linda além da conta, uma mistura de elementos doces, ásperos, cítricos e delicadamente aromatizados. Ela sabia bater o pé, impor suas vontades, perder a compostura e ainda assim manter aquele olhar inexplicavelmente sedutor. Maldito olhar, maldito sorriso. Ele tinha caído em todas as armadilhas, sem exceção. Para ela, era apenas mais um - um número, uma vítima, um degrau a ser superado.

Com a cabeça encostada na mesa, ele se lembrou que ainda morre-se por amor, por mais que a postura contemporânea tente absorver certos ditos poéticos. Decidiu, então, morrer um pedaço, necrosá-lo e extirpá-lo do próprio corpo, mesmo sabendo a quantidade de sangue que isto lhe custaria. Só assim poderia trilhar os caminhos de sua própria estrada, ainda que com um enorme buraco cavado no peito. Esta parecia a única saída no meio de tanta amargura: aprender a viver sem aquela carne, suportando apenas as marcas do ferimento.

Um corte sem cicatriz, que vez ou outra inflamava. A cada inflamação, o fogo cortante partia ao meio suas vísceras. Mas ele sabia como sobreviver, apesar de ferido. Ferido e sem ela.

// Vanessa